“O Alentejo é um caso sério de amor incondicional”

A paixão pelo Alentejo, as viagens, as alterações climáticas, a pandemia da Covid-19. O Prof. Dr. Pedro Cortesão Casimiro em entrevista à GeoLearning! 

(GL) O advento da pandemia da Covid-19 e a consequente disrupção dos sistemas sociais e económicos, parecem ter relegado para segundo plano as questões ambientais relacionadas com a emergência climática. Quando comparados, a pandemia possui um caráter efémero e parece estar a “encobrir” outros assuntos que terão impactos futuros preocupantes. O foco colocado na resolução da crise económico-financeira que se segue poderá ter, de certo modo, implicações no cumprimento de metas climáticas? Terão as agendas ambientais internacionais de redefinir certos objectivos? ou, por outro lado, os governos e os cidadãos terão de redobrar esforços para compensar algum tempo hipoteticamente perdido?

(Prof. Pedro) Há aqui vários aspectos, as questões económico-financeiras já estão, de facto a ter implicações, positivas gostava eu de acreditar, veja-se como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) tem uma dimensão de Transição Climática (21% do total de financiamento), com acções ligadas à mobilidade, descarbonização, bioeconomia e eficiência energética, economia circular, etc. Este esforço, resultante do impacto da pandemia, enquadra-se no ambicioso Pacto Ecológico Europeu que estava já em vigor, apresentado pela comissão em funções, preconizando um impacto da EU no clima nulo em 2050 e que condiciona os investimentos nestas áreas: uso eficiente de recursos, transição para uma economia limpa e circular, redução da poluição e restauro da biodiversidade. Acho que pode, deve ser, uma oportunidade, em chinês a palavra crise (危機) tem dois caracteres: um significa perigo e o outro oportunidade (a rigor também pode significar ponto de viragem).

Eu tento ser optimista, mas convém ter noção, basta consultar o IPCC, que se parássemos totalmente a emissão antrópica de gases com efeito de estufa, por “inércia térmica” o aumento da temperatura iria manter-se durante algumas décadas. A pandemia teve efeitos positivos, por assim dizer, ao permitir ver, de facto, como a qualidade do ar nas cidades melhorou, como os teores de óxidos de azoto baixaram com a diminuição do transporte marítimo e rodoviário, houve muitas fotografias na comunicação social, muitas imagens de satélite, o que deveria ser claro para quem tinha dúvidas (e há muito quem tenha…). Por outro lado, o seu impacto absolutamente global, que nos fez sentir todos, a humanidade, no mesmo barco (mas com vulnerabilidades e capacidade de resiliência muito díspares, em cada sociedade e entre países), requerendo um combate, medidas e uma abordagem verdadeiramente global, favorece, quanto a mim, a visão da necessidade de um combate global, integrado e interdependente.

É um bocado tentar ver o copo meio cheio, não meio vazio, acho que não é uma questão de tempo perdido, o regresso dos EUA ao Acordo de Paris é uma boa notícia, o retrocesso (esperemos) de políticos e políticas negacionistas, retrógradas, insustentáveis e a esperança que tenho – mesmo – nos mais novos, mais informados e mais preocupados com o futuro, desde que ajam, é um bom sinal. Não quero parecer ingénuo, os impactos estão aí, a sua assimetria é brutal, entre ricos e pobres, mais e menos desenvolvidos, Norte-Sul, Este-Oeste e isso dificulta o apoio dos que têm uma maior pegada ecológica e padrões de consumo bem acima da média, pois recusam-se a vê-los descer, George Bush disse em 1992, na Cimeira da Terra que: o american way of life não era negociável. Vamos ter de nos adaptar, mitigar e passaremos, globalmente, um mau bocado, mesmo fazendo o nosso melhor esforço.

Quando se aborda a questão das alterações climáticas, esta é, muitas vezes, erroneamente entendida como uma “luta” para salvar o planeta quando, na verdade, se resume à “salvação” do ser humano. Qual é a sua perspectiva pessoal/posição no que concerne à vitória desta “luta”? Considera que o ser humano conseguirá superar este enorme desafio?

Costumo falar, no início da introdução à evolução geológica da Península Ibérica, nos vários ciclos de extinções no planeta (sobretudo as “grandes cinco”), nas suas circunstâncias e causas, tentando explicar que a vida, como dizia o Professor Malcolm no Parque Jurássico, encontra sempre um caminho. As extinções que ocorreram (hoje estarmos a viver uma sexta extinção, podem e devem ler “A Sexta Extinção” de Elizabeth Kolbert) abriram portas, digamos assim, em termos evolutivos, a outros grupos, é pensarmos na “hipótese” que os mamíferos tiveram para evoluir e para diversificarem, após o fim dos dinossáurios, na passagem do Cretácico para o Terciário. Entre as causas dessas extinções estão alterações climáticas, globais, que fizeram o planeta variar entre fases “bola de gelo” (e.g. Permo-Triássico) e “estufa” (e.g. Cretácico Superior).

Sabemos, portanto, que no passado houve mudanças, longas, drásticas, no clima, configuração das massas continentais e, consequentemente, vida na terra e nos oceanos. Aliás, os negacionistas gostam de se agarrar a essa verdade, para dizerem que as alterações são cíclicas, naturais, desligadas da acção antrópica, o que é uma meia verdade, logo uma falsidade. O que alguns não parecem compreender, é que as alterações actuais, enquadradas numa “grande aceleração” desde os anos 1950 (leiam “The Trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration”de 2015), são indubitavelmente de origem antrópica e que, por exemplo, as concentrações de CO2 na atmosfera são superiores a tudo o que aconteceu no Quaternário (hoje andam nas 415 ppm, nos últimos dois milhões e meio de anos não chegaram, nos picos interglaciares, a 300 ppm).

Portanto, o que está em questão não é esta visão, antropocêntrica e desligada da realidade, de salvar o planeta, mas sim da forma como estamos a alterar as condições que permitem a vida (no sentido mais amplo do termo), como a conhecemos hoje. Nós, humanos, estamos entre as formas de vida e podemos ver as nossas condições de sobrevivência postas em causa, lenta, gradualmente, com impactos na segurança alimentar, saúde, vulnerabilidade a fenómenos climáticos extremos mais intensos, frequentes e prolongados, por exemplo. Pior, a vulnerabilidade é excepcionalmente assimétrica, entre países com diferentes graus de desenvolvimento e recursos, dentro de cada sociedade, piorando com os graus de desigualdade, etc. Sendo uma “luta” (a palavra é vossa) global, a ser vencida – temos de acreditar que sim, participar e fazer por isso – haverá impactos brutais, de baixo para cima, digamos assim, onde se verá o melhor e o pior da humanidade (como se está a ver com a Covid 19), esperemos que o melhor prevaleça.   

Leciona, neste momento, uma unidade curricular sobre o Mediterrâneo, através da qual tenta, também, espicaçar o nosso interesse pelas questões da identidade e da cultura. Numa altura destas, em que nos encontramos – e se encontra o mundo inteiro – ávido da materialização do convívio social e do contacto físico, que implicações pensa que poderá ter a pandemia nos mesmos? A durabilidade das restrições impostas pela Covid-19 poderá deixar-nos, de certa forma, receosos?

Os países à volta do Mediterrâneo são um dos principais destinos de turismo mundial, França, Itália e Espanha estão entre os cinco primeiros a nível global, Egipto, Marrocos, Tunísia e Argélia estão entre os cinco primeiros de África. Naturalmente que há uma mescla de tipologias (cidade, cultura, praia, etc.), mas o turismo a partir do centro e Norte da Europa sempre procurou o Sul, pela cultura, comida, calor, luz, ambiente, como pode ser visto pela atracção que exerce, há muito, sobre artistas plásticos vários. Não deixou de haver a procura dos quatro esses (4S) – Sun, Sea, Sand, and Sex, sobretudo enraizados na “mente” do Norte, pelo contraste dos modos de vida, excepto países do Norte de África, em vários graus, ou Turquia e Israel.

Por isso referi, ao som de “I want to live, in Ibiza”, do DJ Português, Diego Miranda ft. Liliana, que há uma percepção e, digamos, imaginário, associado a festa, liberdade, easy going, bom tempo, ar livre, boa comida, amigos, festa. Nós não estranhamos nem ansiamos por isso, como algo distante, porque faz parte do nosso modo de vida, é-nos familiar e inato, até certo ponto. Por isso sofremos com a falta de contacto, físico também, de socialização, convívio, com família, amigos da dolce vita. Quem já visitou países escandinavos viu, certamente, mas sem querer generalizar, que o distanciamento social é norma, os afectos não são exteriorizados como cá no Sul, a comida nem se fala, o clima menos ainda. Lembro-me até, no extremo boreal da Noruega, perto do Cabo Norte, me perguntarem, sem entenderem, por que raio de razão tanta gente do Sul da Europa lá ia, quase em peregrinação.

Esta nova realidade da Covid 19, com distanciamento e confinamento, à medida que for sendo levantada, por via da vacinação e diminuição de casos e mortes, abrandamento ou suspensão dos confinamentos, deixará certamente marcas e práticas de menos espontaneidade do contacto, no toque, na proximidade, na dimensão dos grupos e por aí a fora. O medo persistirá, embora seja o medo que nos defende e protege de ameaças, não nos podemos é deixar dominar por ele. Contudo, o tempo certamente apagará isso, gradualmente, até porque daremos certamente outro valor à vida “normal”, não quer dizer que não leve tempo e que algumas coisas não persistam, o medo, o distanciamento, mas isso seria triste e contra-natura para nós.

Nas suas aulas, fala muitas vezes no Alentejo. São perceptíveis as boas memórias que guarda e o muito trabalho que já fez sobre este território. Sente uma afinidade especial por esta região do país? Sente que, de facto, o Alentejo possui uma essência encantadora, sui generis​, que o distingue do resto do país?

O Alentejo é uma paixão muito séria, tal como a terra quente transmontana, prefiro citar Miguel Torga que tão bem resume a questão: “Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora”.

Desde 1988, ainda aluno do DGPR e bolseiro de iniciação à investigação da JNICT, comecei a trabalhar no primeiro projecto de investigação europeu que houve na FCSH, sobre variabilidade climática no Sul da Península Ibérica, coordenado pela Professora Maria José Roxo, que me convidou para trabalhar com ela. A investigação, trabalho e amizade que se criou e desenvolveu entre nós, ao longo de vários projectos de investigação e depois como docente do DGPR leccionando matérias com ela, implicou muito, frequente e por vezes demorado trabalho de campo e estadias no Baixo Alentejo, sobretudo no Concelho de Mértola e na envolvência do Centro Experimental de Erosão de Vale Formoso. Fiz as minhas provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica sobre a Geobiografia das mudanças de uso do solo no Concelho de Mértola e a tese de doutoramento sobre Teledetecção e Ecologia da Paisagem, um ensaio metodológico, também no Concelho de Mértola.

Ao longo destes 33 anos passei muito tempo no Alentejo, houve períodos em que todos os meses ia com a Professora Maria José Roxo ao campo, desde que faço saídas de campo com os alunos que os levo ao Sul, vou de férias, levo amigos, família, organizo passeios TT com amigos, etc. A primeira viagem do meu filho, com cinco – seis semanas, foi ao Alentejo, levei quase toda a família da minha companheira, que é da Madeira, àquele Alentejo, nunca esquecerei como um dos meus sobrinhos, então com sei ou sete anos, pela primeira vez fora da Madeira, no cimo da Serra da Alcaria Ruiva, disse que nunca tinha visto um mar de terra.

São tantas, tantas, viagens, situações, aventuras, reuniões, projectos e, também, amigos e conhecimentos, que seria difícil de explicar. A família que toma conta da Herdade de Vale Formoso tornou-se uma segunda família, fomos a matanças, vieram a Lisboa ficar comigo, levei o filho deles à Madeira na passagem do ano 2000. Houve um tempo em que conhecíamos os pastores, as pessoas da aldeia, os lavradores, tanta, tanta gente, sem a qual aquele espaço não faria muito sentido. Foi um processo lento, gradual, quase de simbiose com o território e as pessoas, pois a minha família, de ambos os lados, é “urbana” há várias gerações, de Lisboa, Amarante e Coimbra, portanto, eu nunca tive uma “terra” a que ir ou voltar. Houve uma altura em que até os cães, do Monte e das redondezas, já reconheciam o meu carro e me conheciam, o que me levou a considerar que tinha sido localmente adoptado, de facto.

Portanto, mais do que espaço aberto, horizontes largos e distantes, superfície poligénica, cristas quartzíticas ou complexo xisto-grauváquico, gastronomia, são também as pessoas, amigos e conhecidos, vários infelizmente já falecidos, que tornam o Alentejo, sobretudo o baixo e interior, um caso sério de amor incondicional a que volto sempre, com gosto, prazer e sabendo que há sempre mais e melhor por descobrir.

Refere-se, também, várias vezes, a muitas das suas viagens, utilizando-as como exemplo para ilustrar determinadas situações. Percebe-se, de facto, que é um apaixonado por viajar. Qual foi a viagem mais marcante que já fez? E aquela que mais aconselha a que todos façamos uma vez na vida?  

Falo das viagens nas aulas por uma necessidade, por vezes incontrolável, de partilhar, de ilustrar, de incentivar e despertar, tanto quanto possível, o vosso gosto por viajar. É um processo de descoberta, crescimento e enriquecimento essencial para todos nós, como pessoas, cidadãos e geógrafos. Lembro-me com particular saudade e nostalgia, das viagens, mundos, diapositivos e “estórias” incríveis, coloridas, com enorme detalhe e pormenor, que a Professora Raquel Soeiro de Brito contava nas suas aulas, de Java à India, do deserto às florestas equatoriais, dos Açores a Moçambique.

Quanto à viagem mais marcante foram várias, são todas, talvez destacasse: Líbia, Timor, Bali, São Tomé, Moçambique, Mauritânia, Istambul, Nova Iorque, Banguecoque, Singapura… umas pela diferença e contraste, outras pela aventura, pela cultura, pela história, pela paisagem, enfim, todas e cada uma por motivos diferentes, mas cumulativos e que se cruzam. Há países a que gosto muito de voltar, por todas as razões e explorar sempre um pouco mais, como Marrocos, onde já fui dez vezes e onde pretendo voltar, mal seja possível, tenho umas saudades inomináveis. Ou cidades como Londres e Roma. Gosto muito de andar por Portugal, inventar projectos de viagem, pelas serras tal, pela linha de fronteira, à volta de algo, pelo litoral até algures, na rota de determinada gastronomia, por caminhos antigos, bem como pelos Açores e Madeira, mas ficando e tendo tempo, voltando, faltam-me as Selvagens, o Corvo e as Flores (mas já mergulhei nas Formigas e nas Desertas).

A última grande viagem que fiz foi em 2019, até ao Cabo Norte na Noruega em família, 15 mil quilómetros por estrada, com o meu carro, 13 países, todas as capitais escandinavas, descendo a Noruega com tempo, durante 31 dias, uma pura road trip. Foi fantástica, em todos os aspectos, fiquei com vontade de a refazer, em sentido contrário, explorando a Suécia ao descer, indo pela Estónia, Letónia e Lituânia e tentando visitar São Petersburgo e Murmansk, na Rússia. Gostei particularmente de fazer uma viagem Lisboa, Dakar, Bissau maioritariamente fora de estrada. Estamos a pensar numa viagem de carro, de Lisboa ao Mar Negro, pelo centro da Europa, regressando pelo Adriático e costa Mediterrânea, nasceu de um convite para visitarmos e ficarmos com uma pessoa amiga na Roménia. Planeamos ir ao Egipto, Israel e Jordânia nos próximos anos, aliás a situação de confinamento e congelamento das viagens tem mostrado, também, a falta dramática que fazem, o quanto ajuda planear, sonhar e preparar, a melhor viagem é sempre a próxima…

Quanto a aconselhar uma viagem, não me parece possível ou desejável, há tanto mundo para ver, tão pouco tempo e recursos limitados, a diversidade é tal que cada um deverá valorizar os espaços e experiências que mais aprecia. Há quem goste sobretudo de cidades, quem prefira o mais natural e menos povoado possível, quem goste de climas quentes, ou de frios, de determinadas culturas e religiões, ou não aprecie outras, quem prefira viajar de barco, de carro ou comboio, sozinho, em grupo ou família, as opções são ilimitadas, acho sim que se deve explorar um leque, o mais alargado e diversificado possível de opções, para depois se ir “apurando” nos gostos. Muitas viagens aparecem inesperadamente, por razões insondáveis e imprevisíveis, deve-se aproveitar sempre qualquer oportunidade para ir.

 

Uma personalidade que admira…

Orlando Ribeiro, que não conheci, ao contrário de vários dos meus professores e colegas, mas que leio e releio, que dou a ler a alunos, amigos e conhecidos. Tudo o que escreveu deve ser lido, mas sobretudo a sua magnum opus, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, que deveria ser de leitura obrigatória, até no plano nacional de leitura nas escolas e como requisito de “portugalidade”. Vou citar António Barreto, no documentário “Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo”: “[Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico é] um dos melhores livros de todo o século XX e um dos grandes livros da literatura portuguesa, científica ou não. Maravilhosamente bem escrito, tem precisão, rigor e modéstia académica e universitária”. Orlando Ribeiro definiu o seu livro como “o primeiro ensaio de síntese na destrinça de influências e relações que se entrelaçam na terra de Portugal”.

Tenho no primeiro diapositivo de uma disciplina que lecciono, a sua dedicatória no “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”: “Aos camponeses, pastores, moleiros, almocreves, pescadores e gente de outros ofícios, pela maior parte já desaparecidos, dedico esta obra, nutrida de sabedoria dos velhos e das esperanças e anseios dos novos, aos que nunca o poderão ler: gente humilde que aceitou um destino simples, que exerceu com esforço o que aprendeu dos antigos, modelando a fisionomia dos lugares e prolongando no mar a obscura energia dos homens. Que ao menos tenha sabido guardar, sob a severa disciplina da Ciência, a amorosa compreensão da terra e da gente, que constitui a essência da Geografia, insufla o seu espírito, anima as descrições, ilumina a interpretação e tem constituído, para o autor, a mais convicta e estranha vocação”. Gosto de acreditar que é esta paixão, este espírito que me contagiou e inspirou, como aluno do DGPR, como Geógrafo, como pessoa até, ao qual aspiro e continuamente tento aperfeiçoar e com o qual, humildemente, me identifico.

Há muito mais para ler de Orlando Ribeiro, um verdadeiro humanista, com uma enorme diversidade de interesses intelectuais e conhecimentos, eu sei que a pergunta acerca dos livros é a seguir, mas não podem deixar de o ler, conhecer as suas viagens, os cadernos de campo, as fotografias e conhecerem a sua vida, podem começar a viagem aqui: http://www.orlando-ribeiro.info/home.htm.

Três livros que recomenda…

Um relacionado com o Mediterrâneo, a sua história, cultura(s), diversidade e grandes acontecimentos da época (Século XV-XVI): Leão o Africano, de Amin Maalouf, escritor e jornalista libanês, é uma autobiografia imaginária do Geógrafo Hasan as-Wazzan, figura histórica real que escreveu sobre a Geografia do Magrebe e Egipto. Nasceu Berbere e viveu na Andaluzia, foge de Granada durante a reconquista, vai para Fês, visita Tombuctu na África negra, Constantinopla, está no Egipto quando este é ocupado pelos Otomanos, vai a Meca, quando volta a Túnis é capturado por piratas que o oferecem ao Papa da Renascença Leão X, torna-se seu primeiro conselheiro e amigo, baptiza-se, viaja por Itália. Uma vida, aventuras e viagens absolutamente fascinantes, um livro que nos mergulha completamente na época, nos locais, nos acontecimentos. Aconselho outros títulos de Amin Maalouf: As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, Samarcanda; os ensaios As Identidades Assassinas, Um Mundo sem Regras e O Naufrágio das Civilizações.

Outro livro, relacionado com viagens, O canto nómada, de Bruce Chatwin, um dos maiores escritores de e sobre viagens, passado na Austrália, onde ele estudou os trilhos do canto dos aborígenes, constituídos pelas pegadas dos antepassados e que formam uma rede de caminhos invisíveis por todo o território. O livro tem, também e sobretudo, um “fundo” filosófico, em que o autor tenta responder a várias questões: por que razão o homem é o mais irrequieto e insatisfeito dos animais, porque é que quem vagueia e viaja concebe o mundo como perfeito, enquanto os sedentários o tentam mudar e por que razão os grandes mestres (religiosos) aconselham a estrada, a viagem, como o caminho para a salvação. Uma viagem pela Austrália, questionando a razão por que viajamos, o sentido da viagem, de se ser nómada. Aconselho outros títulos de Bruce Chatwin: Na Patagónia, O Que Faço Eu Aqui?

Por último, um romance histórico, cruzado com policial, totalmente imersivo, na época, local, vivências, sobre o poder dos símbolos, das palavras, dos livros: O nome da Rosa de Umberto Eco. Passado numa abadia Beneditina fortificada, na Itália, em 1327, com uma espantosa e secreta biblioteca, na altura da inquisição dominicana, onde ocorrem mortes misteriosas, seguindo um padrão, que vão ser investigadas por um monge – William de Baskerville – e pelo seu ajudante. Existe uma boa adaptação em filme, mas o livro é obrigatório, deve ser lido sempre e antes de se ver o filme.  Aconselho, entre muitas obras de Umberto Eco, por ser uma questão geográfica, A Ilha do Dia Antes, uma novela de ficção sobre a descoberta do segredo da longitude; Baudolino e O Pendulo de Foucault.  

*Esta entrevista foi escrita ao abrigo do antigo acordo ortográfico

Entrevista: Ana Mendes

Respostas: Prof. Dr. Pedro Cortesão Casimiro

Foto: NOVA FCSH